O médico veterinário Paulo Ricardo Pinto Motta tem 54 anos e durante toda a vida esteve rodeado de cavalos. Natural de São Sepé, na região central do Estado, ele viveu uma parte da infância em sua terra natal e outra na cidade de Tacuarembó, no Uruguai. Em São Sepé, Motta morou na Estância Figueira que contava, na época, com mais de 2,5 mil reses de bovino e 130 cavalares. Ele conta que, antigamente, a família de seu pai criava cavalos de corrida Puro Sangue Inglês (PSI). Também menciona que um de seus tetravôs paterno lidava com equinos em Andaluzia, no sul da Espanha, onde era proprietário da Coudelaria Real Espanhola. Passados os anos, seus familiares vieram para a América do Sul, tendo se estabelecido nas cidades brasileira de São Sepé, no Rio Grande do Sul, e uruguaia de Tacuarembó.
Atualmente, Motta cria cerca de 50 cavalos crioulos, entre machos e fêmeas, e tem uma tropilha de éguas gateada e tubiana (cujo pelo apresenta manchas brancas em fundo escuro ou vermelho) em sua propriedade em Jaguarão Chico, em Aceguá. Neste mês, uma de suas éguas crioula deu à luz com 27 anos. “Difícil uma fêmea equina ter essa longevidade reprodutiva”, destaca.
Apaixonado por equinos, Motta diz que seu hobby é cavalgar. Ele revela que gosta de andar a cavalo para desestressar. “O campo e o cavalo são meus elementos”, declara. Segundo ele, seu animal favorito é inteligente e perspicaz. “Ele percebe quem sente medo dele, quem gosta dele e quem vai maltratá-lo. Com jeito, tudo educa qualquer cavalo. Tu ensinas uma tropilha xucra a se formar. O cavalo é um bicho que se condiciona muito aos bons tratos. Tu judiaste dele, ele te mostra resistência”, explica o veterinário, mencionando que o cavalo e o cão são os bichos mais amigos do homem. “Eles expressam o sentimento deles por ti.”
Motta exerce a profissão desde que concluiu a graduação há 33 anos, na então Faculdades Unidas de Bagé (FUnBA), atual Universidade da Região da Campanha (Urcamp). Possui especialização em equinotecnia pelo Jockey Club de São Paulo e já trabalhou como administrador rural em haras situados nas cidades de Morungaba, em São Paulo, e de Bagé, Erechim e São Sepé, no Rio Grande do Sul. Há três anos, é médico veterinário concursado da prefeitura de Candiota.
TIPOS EM EXTINÇÃO – Quando pode, Motta participa de rodeios. “Na década de 80, eu andei na Argentina e no Uruguai gineteando, tendo conquistado vários prêmios na modalidade de pêlo e basto oriental”, recorda. Nesse período, ele lembra que montou na Semana Crioula Internacional de Bagé e em eventos que ocorreram na Patagônia, na Argentina, e em algumas cidades uruguaias.
Para o veterinário, o homem campeiro do dia a dia é bem diferente de quem frequenta um Centro de Tradições Gaúchas (CTG). “Hoje um guri num rodeio crioulo laça uma vaca em oito segundos. No campo é diferente, têm obstáculos, mato, sanga, declive e por aí vai”, compara. Ele pondera que os rodeios estão atualmente mais voltados para o lado comercial. “Antigamente se gineteava num potro ou aporreado (cavalo de rodeio) por um chapéu, por uma adaga. Hoje virou comercial. As pessoas participam por um carro, uma motocicleta, mudou muito o espírito.”
Motta avalia ainda que a modernidade está matando o tipo chamado gaúcho, devido, por exemplo, ao plantio crescente de soja na Metade Sul do Estado, o que resulta em menor espaço para a pecuária. “O homem campeiro e o gaúcho hoje são tipos em extinção. Eu mesmo tive a felicidade de tropear por nove dias, há uns 15 anos, com 900 capões e 400 reses de cria, pegando intempérie, dormindo no campo. O serviço diário é o que molda o homem do campo. Eu vejo que a gurizada não tem mais isso, vem perdendo esse espírito”, lamenta. “Se a gente analisar, hoje está mais complicado até o homem sair a cavalo à noite num corredor. Quando vê é preso”, ressalta Motta, referindo-se às ações de combate ao abigeato que são feitas na região pelos órgãos de segurança pública.
QUARTEADAS SOCIAIS – Sobre os CTGs, Motta sugere que os mesmos passem a contar com as quarteadas sociais, como havia no passado em algumas entidades tradicionalistas. “Alguns CTGs tinham médico, médico veterinário, dentista e advogado que davam consultas gratuitas”, lembra.
O CAVALO E O TEMPO – Esse foi o título do texto que Motta escreveu em 2015 a pedido da Secretaria Municipal do Turismo de Candiota. Com essa produção (que pode ser conferida abaixo), ele venceu, em maio do ano passado, o concurso de melhor texto regionalista, promovido pela Fundação Cultura, sediada em Brasília.
Tempos quase imemoriais de léguas sem fim, de uma cavalgada da qual se exigia uma bondade e um brio imenso na distância daqueles campos. Entravam distâncias adentro nessas léguas fronteiriças meio platinas, meio brasileiras, campo bruto a ser desbravado. No Pampa forjou-se um tipo: o gaúcho. Esses tempos, por sua essência, merece reverência.
No fogo das manhãs, no tinir das esporas, nos tiros de boleadeiras e de laço, nos pealos de toda a trança, nas mangueiras de pedras e no correr eguadas formou-se a estância.
Nas recorridas diárias, nas reculutas, nas curadas de primavera, nas invernias de julho, nos solaços de janeiro e nas tropas de maio dignificou-se a nossa raça crioula.
Há quase dois séculos, Candiota e a história: Farrapos, Batalha do Seival, laça, espada, pata de cavalo. Revolta e civismo. E o gaúcho continuou brasileiro.
Da estância antiga à modernidade, laços atávicos que unem gerações. Somados a séculos de seleção natural, associados ao conhecimento técnico, deram forma ao cavalo que hoje nos surpreende com suas bondades: rusticidade, resistência, morfologia e função.
Neste complexo segmento chamado agronegócio, vemos a importância do cavalo crioulo, gerando renda e empregos, ferramentas essas tão importantes para o desenvolvimento dos nossos municípios.
