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“Ela foi muito desejada, não tenho vergonha e aceito minha filha do jeito que ela é”, afirma mãe de menina autista

Nas relações sociais, nem sempre é possível ter uma boa comunicação, interações fáceis de lidar ou até mesmo manter comportamentos ditos adequados pela sociedade em geral. Mas já pensou apresentar atrasos na linguagem, conviver com expressões faciais e gestos que nem sempre condizem com o seu sentimento, não conseguir se comunicar através da fala, ter inquietude e falta de habilidades? É desta forma que vivem muitas pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e fazendo com que muitas realidades familiares sejam diferentes das demais.
Pensando nessas pessoas e famílias foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) a campanha Abril Azul, fazendo referência ao mês de conscientização do TEA que tem dia destacado como marco oficial da campanha o 2 de abril, visando promover conhecimento, reduzir o preconceito e incentivar a inclusão de pessoas autistas.
Para marcar o mês e visando também levantar questões acerca da conscientização do Transtorno, o TP conversou com famílias com filhos diagnosticados com autismo, com uma estudante universitária, uma psicóloga para entender o outro lado da realidade e com a Secretaria de Educação de Candiota para destacar ações realizadas em busca da inclusão desse público.

Liziane com a filha Allana no pátio da escola, local que tem auxiliado no desenvolvimento da menina

 

Outra história trazida pela reportagem do TP é da mãe solo Liziane Raupp Gomes, 42 anos e da filha Allana Vitória Raupp Pedroso, de 3 anos e 3 meses – que há cerca de um ano e meio recebeu o diagnóstico do autismo.
Integrante de uma turma do Maternal da Escola Municipal de Educação Infantil Odete Lazarre Correa, da sede de Candiota, a pequena Allana, segundo a mãe Liziane, já apresentou alguns avanços desde que começou a frequentar a escola, principalmente neste ano de 2026. “Sou aposentada e poderia ficar com minha filha, mas fui orientada pela neuropediatra a levar a Allana para a escola para interagir com outras crianças, principalmente para ela se adaptar e o período obrigatório ser mais leve no futuro. Fiquei com o coração apertado, mas coloquei ela pensando em melhorias. A Allana é não-verbal nível dois, o tchau, que é algo simples, até hoje não aprendeu. No primeiro ano foi complicado, ela não interagia, não participava das atividades, chorava, era pouco incluída, mas esse ano está um pouco diferente, está interagindo mais. Já identificamos que ela tem dificuldade de aprendizado. Procuro conversar com outras mães, tento estimular em casa, mas percebo muita dificuldade de focar. Mas na escola ela já deixa as pessoas chegarem perto dela, a professora relata avanços. Ainda que ela não sente e fique caminhando bastante, no mundinho dela, este ano conseguiram fazer com que ela brincasse na pracinha de terra, coisa que ela não gostava, pois tem problema com texturas”, relatou a mãe que comemora cada avanço.
O DIAGNÓSTICO
Liziane contou ao jornal que percebeu que a filha apresentava algum diferencial desde os 4 meses, mas o diagnóstico somente chegou com quase dois anos. “A Allana era uma criança que não chorava por nada e desde bebê ela não deixava tocar em suas mãos. Ela sempre apresentou atrasos, não aceitava alimentos durante a introdução alimentar, custou a sentar, não mostrava sinais de que fosse começar a caminhar. Percebi que ela tinha algo por não chorar, ficar muito com o olhar fixo, parado. O tempo foi passando, sem possível diagnóstico por parte do pediatra, até que ela começou a só dar gritos, bater as mãos, não focava em nada e nunca chorava. Uma segunda pediatra me encaminhou para uma neuropediatra e após alguns exames, já com 1 ano e 8 meses, ela recebeu o diagnóstico de autismo”, contou Liziane.
ACEITAÇÃO
Quanto à aceitação do diagnóstico, Liziane conta que não teve problemas em razão da desconfiança apresentada há bastante tempo. Sempre sonhei em ser mãe de menina e quando descobri a gravidez já estava separada do meu esposo e por já ter perdido gestações anteriores, passei toda a gravidez de repouso. Ela foi muito desejada, não tenho vergonha, aceito ela do jeito que ela é”, frisou.
DIFICULDADES
Liziane, que reside sozinha com a filha em Candiota e possui familiares somente na região de Pelotas, conta  não ser fácil a rotina diária e que deveria se pensar em um espaço específioco com atendimento para autistas no município além do Centro de Reabilitação de Apoio (CRA) que não comporta todas as necessidades. “Minha filha ainda é mais calma, mas vejo muitos pais nos atendimentos em Bagé, que precisam passar todo o dia para poder conseguir transporte. É uma luta, pois criança com autismo se estressa mais que o normal. As famílias precisam de mais suporte”, indicou.
A mãe atípica relatou ao jornal que a maior dificuldade é conseguir os atendimentos necessários para os filhos, situação vivenciada pela maioria das famílias. “Recebemos o diagnóstico e somos encaminhadas para terapias. Mas vejo que para a classe baixa a situação é mais complicada, difícil de conseguir. Não temos recursos para levar a todos os especialistas necessários no tempo certo. Depois do laudo comecei a busca por terapias. Consegui por um período através da Prefeitura em clínica particular, depois consegui no CRA. Até hoje ela não tem todos os atendimentos necessários e na escolinha, como em casa somos só as duas, o objetivo era ver se ela interagia com as outras crianças. Nossa dificuldade é incluir eles no mundo atual, ainda há muito preconceito. Há leis que na prática não existem. Há muita crítica e pouco acolhimento, tudo é demorado e o tempo vai passando”, relatou.
MENSAGEM
Solicitada a deixar uma mensagem para famílias que estão passando pela análise dos filhos ou receberam o diagnóstico, Liziane diz para que não desistam. “Digo para as famílias, as mães principalmente, que aceitem e procurem ajuda, pois se não for desta forma a situação é ainda pior. Não desistir, seguir na luta, um dia de cada vez. “É uma rotina estressante sim. Até um tempo atrás eu não dormia porque a Allana não dormia e precisou tomar medicação. Nas terapias ela chorava, não gosta de portas fechadas. Não é uma situação fácil, minha vida parou, ficou toda voltada para a minha filha. Mas faço tudo que posso, nunca deixei ela escondida em casa, tento levar em todos os lugares, seja com barulho ou qualquer outra atração”.
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