Colunas / Anibal Gomes Filho

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Um ano sem Belchior

Em 30 de Abril de 2017, há um ano, viajou fora do combinado o cantor e poeta cearense Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, que por sinal, residia em Santa Cruz do Sul morando de favor em residência de amigos. De forma surpreendente para muitos, o cantor percorria o mundo há quase dez anos acompanhado de sua companheira Edna Assunção depois de haver separado da primeira família com esposa e dois filhos. Havia abandonado os palcos e apresentações musicais também de forma absolutamente estranha, inobstante o empenho e as inúmeras tentativas de empresários e amigos para que voltasse à normalidade das atividades profissionais, sempre deixadas para depois ou mais adiante, Belchior acabava por desatender aos pedidos insistentes de sua volta, inclusive dos milhares de fãs que lhe encontravam.
Jotabê Medeiros, escritor que lançou a obra: “Belchior, apenas um rapaz latino americano”, após a morte do cantor, relata como comportamento muito estranho o de sua companheira Edna, que parecia demonstrar um desejo de posse sobre o artista, queria-o somente para ela, afastava-o com frequência de contatos mais afetivos com fãs e amigos, influenciava fortemente para que ele não retornasse ao palco dos shows. Havia um sentimento de posse exclusiva que colaborava para a solidão de Belchior nos lugares onde se hospedava, ficando horas a fio escrevendo poemas e letras cujo acesso pertencia somente ao casal e mais ninguém.
Na Páscoa de 2012 na cidade de Rivera no Uruguay quando ainda corriam notícias na mídia sobre seu desaparecimento dos palcos, encontrei Belchior passeando pela Avenida Sarandy com sua companheira. Logo uma pequena multidão de fãs se agrupou ao seu redor passando a entoar a música Medo de Avião. A gentileza, o carinho e a simplicidade com que atendia a todos era algo carismático e inigualável.
Restou sempre o mistério indecifrável para os fãs de sua opção pelo abandono precoce da carreira artística. Um poeta de inteligência incomparável, um gênio das letras, um filósofo da música, um cidadão erudito do ponto de vista cultural.
Em tempos de uma cultura musical de baixíssimo nível no país de Pindorama, resta uma saudade e um vazio irrecuperáveis, ficando, porém, o legado da sua mensagem musical e poética.
“A noite fria me ensinou a amar mais o meu dia, e pela dor eu descobri o poder da alegria e a certeza de que tenho coisas novas para contar.”
“Mesmo vivendo assim, não me esqueci de amar, que o homem é pra mulher e o coração pra gente dar.”
“Eu sou apenas um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior.”
Grande Belchior, tua obra ultrapassará várias gerações e ficará para sempre no coração dos que te ouviram, ouvem e ouvirão eternamente.